Resposta, não enviada, a e-mail de lista de discussão falando (bem) de O Labirinto do Fauno
Não dá pra comparar O Labirinto do Fauno com Harry Potter e – muito menos – com o fraco Crônicas de Nárnia. Basicamente porque têm propostas radicalmente diferentes em sua origem. O Labirinto, ao contrário dos outros dois, é, nitidamente, um projeto autoral, pessoalíssimo e – sobretudo – sem concessões.
Fico meio em dúvida quanto a concordar ou não com o sonho de paz do que você diz que o filme tenta vender. Mas pra explicar o motivo, preciso viajar em algumas impressões que tive do filme. Adiante...
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O labirinto é um lugar onde as pessoas entram para se perder, é a maneira intencional de perder-se. É assim a fantasia. A gente se perde, entre suas paredes, suas bifurcações, seus becos sem saída. A gente tenta superar os desafios que ela nos impõe, mas lá fora – outside the wall – tudo permanece idêntico. Pra mim, O Labirinto do Fauno passa por aí e não poderia ser mais realista. Ao mesmo tempo em que reafirma a força da fantasia, como criadora de mundos paralelos, nega sua capacidade a alterar magicamente o mundo.
O segredo de O Labirinto é que Del Toro toma a fantasia como algo em si mesmo. Na cena crucial, a do embate entre a menina e o padrasto, isso fica evidente. Para o tirano, não existe Fauno algum (assim como não existe tirano para o Fauno). O mundo mágico da menina não é páreo para o chumbo dos militares. Como tudo que é vivo, ela morre. O mundo todo colorido que ela vê antes da morte pode até servir como um consolo, mas a harmonia entre as duas esferas nunca será possível.
No entanto, embora “ensimesmada”, a experiência da fantasia é sim capaz de modificar o mundo, mas por caminhos menos óbvios que os das intervenções de seres alados nos rumos da existência. A fantasia age dentro de quem a experimenta. É desse lugar que ela exerce seu poder. É como se Del Toro tivesse a consciência de que é impossível deitar no berço esplêndido da fantasia em tempos difíceis como no nosso. Ao contrário de Crônicas de Nárnia, por exemplo, onde a meninada é jogada num mundo completamente novo, no qual é possível deixar pra trás a vida de agruras por um tempo para enfrentar outros desafios (e exercer um protagonismo outrora impensável), a personagem de O Labirinto do Fauno oscila full time entre esses dois universos. E essa é pra mim a grande “sacada” do filme. Não há metáforas, uma coisa não remete a outra, a fantasia não é utilizada para explicar o (ou para falar do) mundo, a fantasia é isto: fantasia. O mundo é mundo. Da fantasia, a mais pura; da realidade, a mais dura: no fio da navalha, a pequena Ofélia se equilibra. Ou seja: é genial!
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Sobre Harry Potter. Acho que o filme proporciona outro tipo de experiência. Harry Potter, repare, parte do real como ele é configurado e propõe novas formatações para ele. Há lá uma escola... só que é uma escola para bruxos. Há muitos livros... só que eles voam. Há crianças implicantes... mas elas têm varinhas de condão. Harry Potter é a fantasia contemporânea, feito para crianças/adolescentes que, de certa forma, perderam muito da ingenuidade necessária para, digamos, “fantasiar com eficiência”. Está muito mais ligado à nossa capacidade de divagar, criativamente, com as coisas do dia-a-dia do que com nossa aptidão para mergulhar em outras dimensões. Harry Potter tem o tamanho exato das imaginações preguiçosas de hoje em dia, “colonizadas” pelo realismo. Harry Potter é muito mais divertido do que fantástico.
2 comentários:
Bom, tudo ok acabou de mencionar é verdade. E para lhe dizer acho ke sou uma dakelas pessoas ke nunca cresce: kero acreditar ke a magia antiga se encontra apenas adormecida mas ke existe, e ke seres mitológicos já existiram (ou ainda existem). Não tento provar os meus pontos de vista com o filme ou negar nada no seu comentário. Mas a verdade é ke mencionou numa certa parte do texto ke " a harmonia entre as duas esferas nunca será possível". Ora, deve protestar, pois acho ke a face do kual é considerada "fantasia" (o fantástico), é tão real kuanto a faceta sob o kual convivemos na nossa rotina. Excepto ke a primeira tem uma forma mais misteriosa e menos aberta ou evidente ke a outra. E eu acho ke é exatamente isso ke o realizador keria dizer kuando teve partes no filme como kuando a mandrágora foi posta, a mãe começou tendo uma recuperação tão milagrosa? E kuando foi retirada a mãe pereceu?
Ou kuando depois no final do filme, a árvore acabou por se curar kuando antes estava tão velha e irreparavél kuando o sapo estava debaixo?
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