domingo, 2 de setembro de 2007
Da sabedoria do estrangeiro
Todo estrangeiro tem o dever de tocar na ferida, de cutucar a onça com as varas curtas que traz na algibeira, na mochila, na mala, nos bolsos. Todo estrangeiro tem o dever de perturbar. No entanto, todo estrangeiro deve aprender o valor de mostrar-se incapaz, inepto: deve incomodar sem querer - querendo. Todo estrangeiro tem o dever de parecer gentil, humilde e ingênuo. Todo estrangeiro tem duas orelhas e uma boca e sabe que é preciso saber ouvir, que é preciso saber calar. Todo estrangeiro ferve por dentro e guarda no peito a certeza de saber mais agora, em seu desterro, do que sabia antes, em seu cadinho. E todo estrangeiro guarda esta sabedoria consigo.
Dos direitos do estrangeiro
Todo estrangeiro tem direito à ignorância dos curiosos. Todo estrangeiro é uma criança: ocupa-se de descobrir o mundo ovo, de quebrar sua casca. O estrangeiro tem direito à lanbança, à gagueira, ao balbucio. A tolice do estrangeiro não irrita, faz rir. O estrangeiro é digno da condescendência dos nativos. O estrangeiro é enganável. E o estrangeiro é inofensivo em seu tatear: vem daí sua liberdade, sua vantagem competitiva. O estrangeiro tem
outros olhos, o estrangeiro vê outras coisas e vê as mesmas coisas de outras formas. O estrangeiro deforma.
outros olhos, o estrangeiro vê outras coisas e vê as mesmas coisas de outras formas. O estrangeiro deforma.
Estrangeiro
I'm a real nowhere man. Nasci estrangeiro, desterrado. Preto entre brancos, índio entre pretos, ódio entre os dentes. Exilei-me. Fora do meu nao-lugar original, tinha raízes irreconhecíveis. Teci raízes aéreas para me ligar à nova terra. Sem os nutrientes da tradição, fiz-me híbrido. Desconstruí o pouco do passado que havia em mim e projetei um futuro que não brotava daquele presente, mas era um constructo de linhas dispersas. Juntei meus pedaços, pedaços de outros, possibilidades de vida, possibilidades de amor. Meu espaço-tempo era provincianamente mundializado. Meu mundo, desmundo. Nasci estrangeiro. Carrego comigo este estigma. Todo lugar me causa estranheza - e encantamento. Sou um eterno turista. Todo lugar é lugar de passagem. Minha morada está na fronteira, eternamente na fronteira.
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