O Cheiro do Ralo é uma história pra se acompanhar de estômago embrulhado – ou pra aceitar o inevitável que é a podridão humana. Aceitar e fazer piada. Rir das próprias mazelas de um jeito bem cômodo: vendo-as projetadas no outro, na tela. O cheiro do ralo vem do banheiro, o palácio da intimidade, as quatro paredes que ligam o homem às próprias entranhas, àquilo que é motivo de vergonha, àquilo que se tenta esconder, àquilo que fede, àquilo que é podre. O cheiro do ralo denuncia a podridão que vem de dentro, a podridão dos nossos infernos, dos nossos demônios. Dialoga com o Amarelo Manga das “feridas purulentas”, ocupa-se de mostrar o avesso do humano, expor as vísceras para o deleite dos despudorados e para o nojo dos cidadãos de bom gosto. O Cheiro do Ralo manda o bom gosto à merda.
Mas o Cheiro do Ralo não vai à merda. Se o faz, serve-se de luvas. Há algo no filme que impede que a conexão entre o espectador (bem comportado) e os tipos da tela (podres) aconteça a ponto de promover o encontro efetivo da platéia com seus próprios ralos. O riso – bem administrado – é a maior prova disso. É ele o maior responsável por garantir essa distância e suavizar o caráter perturbador da história. Quem fede, quem apodrece, quem degenera é sempre o outro. É isso que torna o filme palatável. Um detalhe, uma dose a mais de escatologia, e o filme seria demasiadamente pesado, difícil de engolir.
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Quanto à história, O Cheiro do Ralo remete a uma corrente estilística cada vez mais central na literatura brasileira. Corrente que, aos poucos, começa a desaguar no cinema. Falo dessa turma de escritores urbanos que muitos definem, mais ou menos precipitadamente, como discípulos de Rubem Fonseca. São autores fascinados com temas como violência, sexo e escatologia, autores que parecem dispensar a “alma” da literatura. É uma literatura do corpo, dos desejos, das vontades, das fraquezas. É o corpo em todas as suas polaridades, em todas as suas facetas. Desde o mais epidérmico até o mais deep, até o mais úmido. É uma literatura do caralho.
Nesse sentido, O Cheiro do Ralo é muito bem sucedido na tentativa de transportar essa estética, esse clima de cinismo e desilusão para a tela. Há um quê de apocalíptico, uma aura de fim dos tempos. Isso é a cara das grandes cidades brasileiras. Essa atmosfera está em cada esquina, em cada beco, em cada bar. É um jeito de ler o mundo atual. Jeito amargo, meio ácido, meio nietzscheano -- mas sempre um jeito, um caminho, um buraco. Em suma, essa visão rasteira é, em essência, adorável. Afinal, como diria Deleuze: “o mais profundo é a pele”.
5 comentários:
Oi, amigo. Você reparou como este filme é superparecido com o snatch?
Olá recebi, sua url...
Olhe só um pouquinho...
Obrigada Amigo...
Opssss!
Escrevi, nem sei se é vc mesmo?
Mas mabraço...
Amiga de B.H lembrou?
beijinhos Mimi!
Olha ababelado só entra um pouquinho coloca seu comentário, sei que vc tem idéias ótimas, vc escreve muito mesmo, andei dando uma olhadinha no seu espaço, muito legal o modo que vc exp as coisas, mandei o meu endereço, é só entrar, comenta pra saber o que vc acha tá, vai ser um prazer, ter um amigo, se já não nos conhecemos?
mabraço...
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